|
Irreversível
Marcus namora Alex, ex namorada de seu amigo Pierre. Numa noite, os três vão a uma festa. Excitado com o clima do local, Marcus usa drogas, contrariando os conselhos de Pierre, ficando totalmente alterado. Alex, incomodada com o comportamento inadequado do namorado, resolve ir embora e é brutalmente violentada ao atravessar a rua por uma passagem subterrânea. Marcus e Pierre saem da festa logo depois e são surpreendidos pela polícia e pela ambulância, que recolhe o corpo de Alex. Incitado por um homem que diz saber quem cometeu o crime, Marcus, completamente transtornado, resolve vingar a namorada com suas próprias mãos. Confesso que embora já esteja de certa forma acostumada com as péssimas e pouco inteligentes críticas de Rubens Edwald Filho, fiquei surpreendida com o que li a respeito deste filme. Edwald faz um ataque violento não só ao longa mas ao diretor, abandonando a "estética literária" que qualquer crítico de cinema deve respeitar, deixando transparecer algum incômodo muito pessoal. Irreversível não é um filme doce. Pelo contrário. Amargo, pesado, de fato violento, mas ao mesmo tempo, terno e delicado. Em sua crítica, Edwald classifica o filme como uma imoral cópia barata de "Amnésia". A não ser pelo fato de que a história é contada de trás para frente, um filme não tem absolutamente nenhuma semelhança com o outro e mesmo esta coincidência, não justifica a comparação, já que a concepção da cronologia em cada um dos filmes é totalmente e obviamente distinta. A primeira sequência da trama é ambientada num reduto gay, a dança constante da câmera ás vezes chega a provocar mal estar, justamente no intuito de desconfortar e ao mesmo tempo proteger os olhos (de quem não quer ver), das cenas que acontecem naquele lugar, embora muitas vezes, em algumas tomadas mais iluminadas e, principalmente pelos ruídos, possamos entender o que se passa. A sequência termina num assassinato que acontece de maneira extremamente violenta, de fato não recomendada para estômagos mais fracos. Pode parecer confuso, mas a motivação do personagem que o comete vai ser revelada no transcorrer da fita. A vingança está feita. A partir daí, a história vai voltando para trás, em pequenos flashs, não com o objetivo de revelar segredos, explicar ou juntar pedaços da trama, que, pelo contrário, fica bem clara desde o início do filme e é revelada em qualquer uma de suas sinopses, inclusive aqui; mas sim, semeiam, nas ações, no comportamento e nos momentos e sentimentos dos personagens, que vão desde a mais cândida ternura até o ódio incontrolável, assim como nos fatos, os pressupostos nos quais Gaspar Noé baseia e justifica seu filme: "Irreversível porque o tempo destrói tudo porque alguns atos são irreparáveis porque o homem é um animal porque o desejo por vingança é um impulso natural porque a maior parte dos crimes não são punidos porque a perda de um amor destrói como um relâmpago porque o amor é a fonte da vida porque todas as histórias são escritas em esperma e sangue porque é um bom mundo porque premonições não alteram o curso dos eventos porque o tempo revela tudo, o melhor e o pior." Algumas cenas do filme são fortes sim, mas de maneira nenhuma apelativas ou desnecessárias, muito menos imorais; no entanto, podem causar desconforto justamente por serem extremamente reais e intensas. Contaminado pelas cenas iniciais do filme, o espectador se surpreende ansioso e inadequado, ao vivenciar, na medida que a história regride, momentos de afetividade, ternura e alegria. O filme vai do extremo da pureza e da vida até o extremo da morte e das perversidades. É uma enchurrada de diferentes e opostos sentimentos que provoca, de maneira eficaz, podendo incomodar a muitos, a reflexão sobre o fato de que tudo isso faz parte de um mesmo mundo. Muitas pessoas, de fato, não gostariam de ser expostas, pelo menos não desta forma crua, a esta realidade. No entanto, quem estiver disposto, assistirá a um ótimo filme, ademais, com boa direção, bom roteiro e boas interpretações.
Irreversível (Irréversible, França, 2002) Gênero: Drama Duração: 95 min Distribuidora: Europa Filmes Produtora(s): 120 Films, Eskwad, Grandpierre, Les Cinémas de la Zone, Nord-Ouest Productions, Rossignon, Studio Canal Diretor: Gaspar Noé Roteirista: Gaspar Noé Elenco: Monica Bellucci, Vincent Cassel, Albert Dupontel
|
| ena October 2, 2003 09:21 PM PDT Uma vez que se consiga aguentar toda a violência inicial, tem-se um excelente filme... :) | ||
| Leave a Comment: |